Episódios tristes

Cair da cama de madrugada, passar a mão no facão, na moringa, na lima, na malinha de comida com arroz, feijão, carne seca, farinha, ovo,  café e pão e ir para o ponto esperar o veículo que as levaria até os canaviais, era rotina daquelas pessoas. Naquela manhã, o sol já mostrava seus raios no horizonte quando os abnegados heróis  já estavam sobre a carroçaria do caminhão que percorria os pontos estratégicos da cidade. Era sábado, dia 7 de fevereiro de 1959, último dia da safra canavieira correspondente a 1958/59. Como a maioria dos trabalhadores rurais, os guerreiros, cantarolando músicas sertanejas da época,  seguiam felizes para o eito, onde cortando cana-de-açúcar tirariam o sustento para suas  famílias. Tudo era alegria, pois o final da safra canavieira coincidia com o final de semana e os trabalhadores tinham a sensação do dever cumprido. Ninguém, nem mesmo eles, imaginavam que aquela viagem seria interrompida de forma abrupta e cruel e que a morte fria, calculista e traiçoeira ceifaria a vida  de  seis companheiros de batalha. A fatídica manhã de fevereiro começava com o caminhão em que viajavam perdendo os freios pouco acima da Igreja Matriz da cidade e em alta velocidade descendo uma das ruas principais parando de rodas para cima, dentro de um rio. À medida que o veículo pulava  pequenos obstáculos, um passageiro era jogado ao chão e em poucos segundos cinco deles ficaram estendidos sem vida nos paralelepípedos. Uma menina de pouco mais de 16 anos morreu em baixo do veículo que ficou submerso no rio. A notícia se espalhou rapidamente e a consternação tomou conta de todos os moradores. A  pacata região central da cidade ficou completamente tomada por curiosos, voluntários e pessoas que tentavam de alguma forma socorrer  os feridos, além dos familiares que desesperadamente procuravam por informações.

O experiente motorista mostrou habilidades e evitou que o acidente se tornasse numa catástrofe ainda maior. Em homenagem póstuma às vítimas fatais  o cantor e compositor Mário Borges da dupla sertaneja Borges e Borginho fez a canção “Caminhão Sem Breque”.

Fatalidade

São raras as cidades brasileiras que não têm uma rua, praça ou outro logradouro público em homenagem a Duque de Caxias. Num bonito lugarejo encravado em um dos grotões desse país com dimensões continentais também tinha a famosa Rua Tiradentes. Corria o ano de 1947 e estimava-se à época que não havia na cidade cem veículos automotores, portanto, a chance de acontecer um acidente era remota, quase impossível.  Não se tinha registro de acidente grave havia anos, sobretudo na parte central da cidadezinha. Terra de gente pacata, pujante, e acolhedora, não estava acostumada com episódios tristonhos e  fatalidades. Finalzinho de tarde do longínquo 1947, a tristeza bate à porta da pequena cidade, quando um caminhão Chevrolet dirigido por um dos melhores motoristas do lugar, atropela e mata um garoto de pouco mais de dez anos. Uma fatalidade que aconteceu justo na sossegada Rua Tiradentes.

::…  Os dois textos desta coluna não têm nenhuma relação com episódios reais. Caso haja alguma semelhança com episódios verídicos, é pura coincidência.

BBlanco

Obs: Material publicado no Jornal Sabadão do Povo, edição de 11 de fevereiro de 2017.