Júlio Ferrari

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Júlio Ferrari nasceu na Itália, na cidade de Cremona. Ainda muito moço, em companhia da esposa Thereza Ludegiani Ferrari, rumou para o Brasil. Os quatro filhos do casal – Maria, Emydio, Henrique e Edilia – nasceram no Brasil. Pelo fato de seus pais falarem italiano, as crianças apreenderam a lingua italiana. Júlio e a família moravam na Rua Cel. Joaquim Gabriel. Alí ele trabalhava com madeira. Portador de dotes artísticos ele fabricava móveis de muita qualidade e beleza. Naquela época, evidentemente, as ruas da cidade não contavam com calçamento e em frente a sua casa, a enxurrada sempre abria uma vala e Júlio improvisava fazendo uma pinguela de tábua. Era comum esse procedimento antigamente. Apesar de trabalhar com madeira, a música era sua grande paixão. Nas horas de folga ele estudava música e isso durou muitos anos. Aprendeu a tocar instrumentos musicais de sopro.
Em 1906, no bairro Rocinha, Júlio Ferrari fundava a Corporação Musical Giuseppe Verdi. O bairro Rocinha era um bairro povoado por imigrantes italianos e como não poderia deixar de ser era muito musicado. Conhecido como Maestro Júlio Ferrari ele dava aulas de música ás crianças. Ele gostava de afirmar que as primeiras lições tinham que ser de solfejos, movimento que o maestro faz defronte aos músicos. A aula consistia no seguinte: o aluno solfejava, enquanto o maestro finalizava e batia o compasso com as mãos, ou com os pés.  O aluno que errasse não passava à lição seguinte. Ele dizia que precisava ser persistente  treinar melhor. A banda estava forma e pronta para se apresentar, entretanto, o maestro explicava que tocar andando era uma tarefa difícil e precisava de muita desenvoltura. Para treinar seus alunos, ele os levava até a Ráia Velha e de lá eles desciam tocando até a rua 15 de novembro e assim a orquestra acabou ficando pronta para se apresentar. Aos domingos, não faltavam as retretas e a banda se apresentava na praça central da cidade. Ali as pessoas podiam apreciar a boa musica como valsas, dobrados, marchas etc. O historiador Alexandre Chitto, que chegou a conhecer o maestro Ferrari dizia sempre que “onde há um coreto, sempre se escuta uma banda tocar”. Além de tudo, afirmavas Alexandre Chitto, “o maestro Júlio Ferrari era um excelente compositor. Sentado à mesa de trabalho, colocava o polegar na boca, num gesto peculiar e inspirado compunha belas melodias”. Aí, ficava horas entretido e só interrompia para dar uma fumadinha no pito e ter outra inspiração. Dava uma pausa, sentava-se na soleira da porta, tirando pequenas baforadas e pensava… Renovado, voltava a compor. Como na época não se encontrava na cidade papel adequado para compor música, ele comprava papel almaço sem linha e caprichosamente riscava as pautas. As notas musicais eram marcadas com caneta de madeira e pena de aço. Cada vez que ia escrever tinhas que molhar  a pena no tinteiro. Para tirar o excesso de tinta havia o mataborrão que servia também para secar a tinta. O maestro não gostava entretanto desse processo e secava  escrita, os traços,  com areia fina. A areia para essa tarefa era retirada do Paradão (hoje Parque Paradão). Os filhos do maestro estavam incumbidos de trazer a areia fina e branca. Júlio depositava a areia em uma latinha cheia de furos e a deixava cair sobre as partituras, processo que deixava os traços em alto relevo e sem manchas.
Já doente, o maestro Júlio Ferrari foi aconselhado a parar de fumar e atendeu ao conselho do médico. Um dia, pediu à esposa que o deixasse pitar somente um pouquinho e deu longas baforadas. Horas depois faleceu. A corporação musical acompanhou o féretro tocando a marcha fúnebre, da casa à igreja e depois seguiu até ao cemitério. Os músicos emocionados tocaram chorando durante todo o trajeto. Júlio Ferrari morreu com 86 anos e foi enterrado no cemitério local. Na década 1980 em homenagem a ao maestro foi criado o bairro maestro Júlio Ferrari, na zona oeste da cidade. A ruas do bairro homenageiam os músicos de Lençóis Paulista.

Fonte: Lençóis Paulista, Ontem e Hoje