Realizado, bondoso e infeliz

Ele era um homem bem sucedido, tinha diversas empresas, fazendas, muitos funcionários, frota de veículos  do ano, imóveis alugados e uma situação financeira estável, tranquila.  Tinha uma família bem formada. Esposa dedicada aos afazeres do lar, prendada e atenciosa com filhos. Os dois herdeiros do casal já começavam a caminhar por conta própria, pois tinham terminado a faculdade e o mais velho já morava no exterior onde concluía seu curso de doutorado. Ele tinha uma vida plena e participava  ativamente dos eventos sociais da cidade. Frequentava assiduamente a igreja, era  presidente regional  de um clube de serviços, e esse engajamento lhe propiciou angariar vasto círculo de amigos.  Apesar da vida tranquila, ele não era plenamente feliz. Sentia que lhe faltava alguma coisa. Carecia de um bom tempero para a sua existência.  Foi pensando assim que nas suas raras horas de folga, começou a participar de campanhas  em prol  de famílias desassistidas, iniciando pela periferia de sua cidade para depois abrir o leque para uma grande região. Percebendo a gigante demanda, além de contribuir com algum tipo de ajuda, intensificou suas visitas a hospitais, asilos, albergues e creches. Nas noites frias e muitas vezes chuvosas, percorria as ruas da cidade distribuindo cobertores, alimentos e remédios para as pessoas que pernoitavam no sereno. A bem da verdade, o que ele mais queria era encontrar uma solução para o grave problema social, mas como não era possível, o seu gesto era paliativo plausível. A distribuição de brinquedos às vésperas do Natal passou a ser sua ‘menina dos olhos’. Aquele rosto duro e infeliz até esboçava um amarelo sorriso ao ver o brilho no olho de uma criança que abraçava o brinquedo por ele doado. Como já era frequente, numa tarde de domingo ele decidiu visitar um asilo que ainda não conhecia. Conversou, dançou e à sua maneira brincou com os idosos, fez inúmeras perguntas, ouviu as queixas e estórias, distribuiu algumas lembrancinhas e como era costume seu, anotava a maioria dos casos pitorescos e tristes relatados por cada hóspede.  Uma senhorinha de pouco mais de oitenta anos chamou a atenção do visitante. Aproximou-se dela e perguntou-lhe da família. A velhinha disse que tinha uma família bem estruturada e com a morte do marido, os filhos decidiram colocá-la no asilo.  Ela contou que tinha três filhos e que dois deles já fazia muito tempo que não os via, mas o mais velho a visitava pelo menos uma vez por ano. Revelou que no natal passado (foi no  início de novembro essa conversa) ele esteve lá para lhe dar um abraço. Já em relação aos netos, ela confidenciou que ainda não os conhecia, mas que tinha esperança de  abraça-los um dia.  As lágrimas que teimavam escorrer pelas faces marcadas pelo tempo daquela velha e sofrida mulher comoveram o visitante que chorou copiosamente. Pela primeira vez em sua vida ele percebeu que o desamor está presente   em todas as classes sociais, religiosas ou étnicas.  Notou que para ser feliz  o ser humano não necessita de riquezas materiais, basta ostentar boa dose de amor, socorrer e amparar seus semelhantes.

Benedicto Blanco – Jornalista

Texto publicado no Jornal Sabadão, edição do dia 03 de dezembro de 2016.