Adolescentes a partir dos 14 anos estão consumindo mais álcool por conta da pandemia e do isolamento social

Incentivo e aceitação por parte dos pais contribuem para vícios e problemas de saúde, explicam médicos do Hospital Sírio-Libanês

São Paulo, janeiro de 2021 – O distanciamento social necessário para combater a pandemia de COVID-19 contribuiu para o aumento do abuso do álcool na sociedade geral. O último levantamento feito pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS) mostrou aumento na frequência do consumo de bebidas alcoólicas em grande quantidade em 35% dos entrevistados com idades entre 30 e 39 anos.1 Mas não é só essa faixa etária que tem bebido mais. Uma pesquisa canadense consultou mais de mil jovens entre 14 e 18 anos para entender de que forma a pandemia alterou a quantidade, frequência e contexto do uso de substâncias como álcool, cannabis e cigarro eletrônico. O resultado: há mais jovens bebendo com maior frequência e na companhia dos pais naquele país.2

A pesquisa levantou que, em relação ao álcool, o percentual de jovens que fazem o consumo passou de 20,6% no período pré-COVID para 30,1% no período atual. A periodicidade também aumentou. A média de dias de uso nas 3 semanas avaliadas antes e após a COVID-19 (período atual), foi de 0,76 para 0,96. Já a quantidade, diminuiu.2 “Os jovens têm deixado de lado um comportamento chamado de beber pesado episódico (BPE), que é o consumo nocivo de grande quantidade de álcool em uma única ocasião. Mas isso não é motivo para comemorar já que a frequência tem crescido em uma idade tão precoce. No Brasil, quase 40% das crianças tem o primeiro contato com o álcool por volta dos 13 anos, como aponta o Manual de Orientação sobre Bebidas Alcoólicas, publicado em 2017, pela Sociedade Brasileira de Pediatria”, explica Dr. Arthur Guerra, psiquiatra coordenador do Núcleo de Álcool e Drogas do Hospital Sírio-Libanês e presidente do CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool.

A pesquisa canadense indica também que 42% dos adolescentes entrevistados contam com a companhia e/ou aprovação dos pais durante o uso dessas substâncias.2 “Muitos pais acreditam que estão protegendo seus filhos do uso abusivo do álcool ao permitir e acompanhar o consumo em casa. Na verdade, eles estão contribuindo para uma experimentação precoce e prejudicial. Hoje, sabemos que quanto mais cedo o uso do álcool, maior o risco de dependência, sem mencionar os reflexos na saúde em curto e longo prazo”, alerta o especialista. “O melhor a se fazer é dialogar de forma aberta e clara sobre os impactos do álcool na vida e saúde dos adolescentes. Além da informação, os pais também devem dar um bom exemplo, mostrar uma relação saudável com o álcool. Essa é uma oportunidade de reforçar e estreitar o relacionamento com os jovens, o que é construtivo para todos”.

Álcool, sistema imunológico e saúde mental

O consumo de bebidas alcóolicas, principalmente em grande quantidade, afeta o funcionamento das células de defesa e contribui para a debilidade do sistema imunológico, reduzindo a sua capacidade de proteger e combater o organismo de doenças infecciosas, como a provocada pela SARS-CoV-2. Além disso, também é um fator de risco para a síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), uma das complicações mais graves da COVID-19.3

“Apesar de a maioria das pessoas atribuírem a sensação de relaxamento ao consumo de álcool, ele intensifica sentimentos como medo e ansiedade, além da depressão. Isso contribui de forma negativa para a saúde mental daqueles estão cumprindo o distanciamento social, tornando tudo mais difícil”, esclarece Guerra.

Como identificar mudanças no consumo do álcool

Um exercício eficiente para identificar mudanças no consumo de álcool é anotar em um caderno os horários e situações que antecedem e acompanham essa vontade. Dessa forma, é possível identificar gatilhos e aprender a gerenciar a nova relação com as bebidas alcóolicas.

Quanto é considerado saudável?

Diversos estudos internacionais indicam que não há quantidade considerada saudável – posição adotada também pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mesmo em situações em que o álcool oferece benefícios individuais, como a relação entre o vinho e o coração, esses não superam os riscos de desenvolver outros problemas de saúde, como o câncer.4 Por isso, se for optar pela ingestão de bebidas alcóolicas, a palavra é moderação.

Referência

• Alcohol Use during the COVID-19 Pandemic in Latin America and the Caribbean, 8 September 2020. Acesso em 04 de janeiro de 2021. Disponível em: https://iris.paho.org/handle/10665.2/52646

• COVID-19 e uso de álcool por jovens. Acesso em 04 de janeiro de 2021. Disponível em: https://cisa.org.br/index.php/pesquisa/artigos-cientificos/artigo/item/271-covid-19-jovens

• Álcool e COVID-19: O que você precisa saber. Acesso em 04 de janeiro de 2021. Disponível em:

file:///C:/Users/larissa.gomes/Downloads/PT_SHORT_ALC_COVID_11420[OPAS].pdf

• Entenda os riscos do consumo de bebida alcoólica. Acesso em 04 de janeiro de 2021. Disponível em: https://www.blog.saude.gov.br/index.php/promocao-da-saude/53786-entenda-os-riscos-do-consumo-de-bebida-alcoolica
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