Castigado pela ganância!

 

mochileiro

Como qualquer jovem da minha idade eu sonhei conquistar o mundo. Muito cedo, cheio de esperanças, parti para novas  plagas, sempre tendo em mente a aquisição de um carrão zero quilômetro, moto, casa bonita, roupas de grife, relógios, perfumes, entre outras ostentações que, teoricamente apenas descendentes de algumas dinastias abastadas possuem. Cruzei fronteiras, passei frio, tomei chuva e adormeci em calçadas sem nada comer, mas a minha obstinação pela fama, riqueza e poder estava  a cada dia mais aflorada.    Aqueles que me eram caros ficaram para trás, e esporadicamente eu fazia contato com eles. Dizia a meus pais e irmãos que estava com saudades e que muito em breve regressaria trazendo riquezas e conquistas. Mal sabiam eles que até a mochila eu havia vendido para comprar um pedaço de pão.  Nunca disse a eles que minha vida tinha se transformado num inferno e que nem dinheiro para comer eu tinha. Os anos passaram e os contatos com a família foram se escasseando. De uma vez por semana passou para uma por mês e logo para uma vez por ano, até que acabei  perdendo totalmente a ligação com eles. A vida que já era dura longe de casa, ficou muito pior. O implacável tempo já deixava suas marcas no meu rosto e aos poucos debilitava a minha já precária condição física. Minhas noites eram longas e eu percebia que morria aos poucos. Aqueles meus sonhos coloridos de conquistar o mundo esmaeciam e se transformavam em nuvens cinzentas que turvavam  meu pensamento e embaçavam os olhos. Pensava já ser muito tarde para voltar. Não sabia o que encontrar no seio da família. Num momento raro, um pensamento extremamente otimista permitia que eu enxergasse que talvez os irmãos estivessem vivos, e possivelmente tivessem constituído família, gerado filhos e netos e progredido em algum ramo de negócio ou, na pior das hipóteses, estariam  aposentados com um salário razoável, suficiente para sobreviverem bem os últimos anos de vida. Os pais, já idosos, certamente  já deveriam ter partido. Minha vidinha sem expectativas seguia sem perspectivas de melhoras. Dia após dia, noite após noite, sem nenhuma novidade. Cada inverno, cada noite chuvosa sobrevivida, se constituíam numa conquista sobrenatural. A palavra esperança há muito havia sido tirada do meu dicionário. Não tinha mais norte, não sabia para onde ir. Minha vida tinha se transformado num barco à deriva, cujo timoneiro (que sou eu) havia se acovardado e se “jogado nas águas bravias”. Em todo o tempo drogas me eram oferecidas, mas relutei e apesar da precariedade de minha vida, sobrevivi sem elas. Hoje vivo em uma casa para idosos e pessoas com necessidades especiais. Ouço estórias de outras pessoas que, igual a mim, não soberam programar a própria vida. Assim como eu, muitos se deixaram levar pela ganância e abdicaram da própria existência.

 

::.. Benedicto Blanco é jornalista, colunista no Jornal Sabadão do Povo, administrador do site Lençóis Notícias e membro da Academia Literária Lençoense.

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