Comer muita carne vermelha pode diminuir sua expectativa de vida

Uma revisão de seis estudos que avaliaram os efeitos de dietas carnívoras e vegetarianas concluiu que todas as causas de mortalidade são maiores para aqueles que comem carne, particularmente vermelha ou processada, em uma base diária. Há pouco tempo, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer das Nações Unidas afirmou que a carne é uma substância cancerígena tão perigosa quanto o plutônio ou o tabagismo. A nova análise corrobora essa visão. Apesar da variabilidade dos dados, os pesquisadores concluíram que o aumento da ingestão de carne vermelha, especialmente a vermelha e processada, está associado com o aumento da mortalidade por qualquer causa.

O estudo acompanhou mais de um milhão de pessoas e considerou a associação de mortalidade e carne processada (como bacon, salsicha, salame e presunto), bem como carne vermelha não processada (como carne não curada nem salgada de vaca, porco e cordeiro).

Dados convincentes

A meta-análise de 2014 examinou as associações com mortalidade por doença cardiovascular e doença isquêmica do coração. Nesse estudo de mais de 1,5 milhões de pessoas, pesquisadores descobriram que a carne processada aumentava significativamente o risco de mortalidade por qualquer causa. Além disso, uma revisão com mais de 500.000 participantes feita em 2003 revelou uma diminuição do risco de 25% para quase 50% de todas as causas de mortalidade em pessoas com consumo muito baixo de carne em comparação com pessoas com alto consumo.

Os cientistas também descobriram um aumento de 3,6 anos na expectativa de vida das pessoas que levavam uma dieta vegetariana durante mais de 17 anos, em comparação com os vegetarianos de curto prazo.

Risco de câncer em cinco vezes

O consumo de carne vermelha foi ligado ao desenvolvimento de certos tipos de câncer em seres humanos. Agora, os cientistas acreditam ter descoberto por quê. Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences encontrou uma molécula de açúcar presente na carne que pode desencadear uma resposta imunológica em seres humanos, provocando inflamação, o que por sua vez contribui para o crescimento de tumores.

O estudo

Seres humanos são os únicos carnívoros que enfrentam risco aumentado de câncer como um resultado de comer carne vermelha. Assim, os pesquisadores decidiram concentrar sua análise em uma molécula de açúcar chamada Neu5Gc encontrada em níveis elevados em tecidos cancerosos que não é produzida pelo corpo humano, o que indica que vem de nossa dieta, mas é produzida naturalmente pela maioria dos mamíferos. Quando os pesquisadores mediram a quantidade de Neu5Gc em vários alimentos, eles descobriram que a carne vermelha tinha níveis particularmente altos. Carne de vaca, de bisonte, de porco e de cordeiro tinham a maior quantidade. Aves, peixes (com exceção de caviar), legumes e frutas não possuíam Neu5Gc.

Em seguida, alimentaram camundongos “humanizados” (modificados para não terem a capacidade de produzir Neu5Gc) com ração enriquecida com o açúcar durante 12 semanas. Os ratos também receberam injeções regulares de anticorpos de Neu5Gc para imitar o que acontece no corpo humano quando comemos carne vermelha. Os pesquisadores descobriram que esses camundongos desenvolveram cinco vezes mais tumores que os humanizados alimentados com uma dieta sem Neu5Gc.

O fígado foi o local mais comum dos tumores, e biópsias encontraram Neu5Gc neles. Os seres humanos, ao contrário, tendem a desenvolver câncer de cólon como resultado de dietas com muita carne vermelha.

Adeus carne mal passada?

Não é preciso eliminar a carne vermelha de sua dieta para sempre. Ela é uma importante fonte de ferro, proteínas e outras vitaminas, de modo que seu consumo moderado pode render benefícios nutricionais. No entanto, é melhor não exagerar. Além disso, o estudo não indica que comer carne vermelha é uma causa direta de câncer. Mais pesquisas são necessárias para estabelecer um link definitivo.

Carne processada pode causar câncer de pâncreas

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Pesquisadores da Suécia sugerem que comer carne processada, como bacon e salsichas, pode estar relacionado com o câncer de pâncreas. Eles afirmam que comer 50g de carne processada – cerca de uma salsicha – todos os dias, pode aumentar o risco de câncer em 19%. Comer carne vermelha e processada já foi ligado ao câncer de intestino. Como resultado da pesquisa, o governo do Reino Unido recomendou em 2011 que as pessoas não comam mais do que 70g por dia.

Susanna Larsson, que conduziu o estudo do Instituto Karolinska, disse que a ligação da carne com outros tipos de câncer foi algo bastante controverso. “Sabemos que comer carne aumenta o risco de câncer colorretal, mas não é muito conhecida a ligação com outros tipos de câncer”, disse. O novo estudo analisou informações de 11 outras pesquisas e 6.643 pacientes com câncer de pâncreas. Ele sugere que o risco de câncer de pâncreas aumenta 19% para cada 50g adicionados a dieta diária. Ter 100g extras aumentaria o risco em 38%.

O risco de desenvolver câncer de pâncreas em toda a vida é “relativamente pequeno”, de acordo com um instituto de estudo de câncer britânico – um em cada 77 homens e uma em cada 79 mulheres.

“Ainda não sabemos se a carne é um fator de risco definido para o câncer de pâncreas e outros grandes estudos são necessários para confirmar isso, mas essa nova análise sugere que a carne processada pode estar desempenhando um papel”, afirma Sara Hiom, diretora do instituto. No entanto, ela ressaltou que o fumo é um fator de risco muito maior.

O Fundo Mundial para a Pesquisa em Câncer alertou as pessoas para que evitem comer carne processada. O pesquisador Rachel Thompson disse: “Vamos re-examinar os fatores por trás do câncer pancreático no final deste ano como parte do nosso projeto de atualização contínua, que deve nos dizer mais sobre a relação entre o câncer de pâncreas e carne processada. Há fortes evidências de que estar acima do peso ou obeso aumenta o risco de câncer de pâncreas, e este estudo pode ser uma indicação de outro fator por trás da doença.”

Carne e queijo são prejudiciais quanto o cigarro

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Um estudo que acompanhou uma amostra grande de adultos por quase vinte anos chegou a uma conclusão surpreendente: uma asinha frita de galinha pode ser tão prejudicial à sua saúde quanto um cigarro. Uma dieta rica em proteína animal durante a meia-idade aumenta em quatro vezes o risco de morrer de câncer, em comparação com uma dieta de baixa proteína, um fator de risco que é comparável ao de fumar.

E não é só o risco de câncer que aumenta; o risco de morrer também aumenta. O grupo que se alimentou com mais proteína tinha 74% mais de chances de morrer de qualquer causa durante o período de estudo do que os participantes que comiam pouca proteína. E também o risco de desenvolver diabetes era maior. Com este estudo, uma das perguntas que os cientistas tentaram responder era quanta proteína precisamos comer ao longo da vida, além de apontar que há uma correlação definitiva entre a mortalidade e o consumo excessivo de proteínas.

Ao fazer o estudo, os pesquisadores tiveram uma abordagem inovadora – em vez de olhar para a idade adulta como uma fase monolítica da vida, o estudo considerou como a biologia humana muda durante o envelhecimento, e como as decisões tomadas na meia-idade afetam a expectativa de vida. Em outras palavras, o que é bom para você em uma idade, pode ser danoso em outra. As proteínas controlam o hormônio IGF-I, que ajuda no crescimento, mas também está ligado à suscetibilidade ao câncer. Os níveis de IFG-I caem dramaticamente após os 65 anos, o que leva a uma fragilidade e perda de músculos.

O estudo mostrou que, se na meia-idade o consumo de proteínas pode ser danoso, a partir dos 65 anos ela pode proteger a saúde. Os participantes com mais de 65 anos que tinham um consumo moderado a alto de proteínas eram menos sujeitos a doenças. Além disso, os pesquisadores descobriram que as proteínas de origem vegetal, como as que são obtidas do feijão, não parecem ter o mesmo efeito na mortalidade quanto as proteínas animais. As taxas de câncer e morte também não parecem ser afetadas pelo controle do consumo de carboidratos ou gordura, sugerindo que a proteína é a principal responsável.

Mas o professor Valter Longo, da Universidade da Califórnia em Davis (EUA), pesquisador principal deste estudo, aponta que sair do extremo da ingestão de proteínas para não comer nenhuma pode causar danos à saúde também. Os dados apontam que o consumo saudável é de 0,8 gramas de proteína por quilo de massa corporal todos os dias, durante a meia-idade. Por exemplo, uma pessoa de 60 kg deveria ingerir entre 45 e 50 gramas de proteína por dia, de preferência derivadas de plantas, como legumes.

No contexto do estudo, uma dieta “altamente proteica” era aquela em que pelo menos 20% das calorias ingeridas provinham de proteínas, tanto de origem vegetal quanto animal. Uma dieta de consumo moderado de proteínas inclui 10 a 19% das calorias ingeridas oriundas de proteínas, e as dietas de baixa proteína aquelas em que menos de 10% das calorias ingeridas provém de proteínas. Neste estudo, mesmo o consumo moderado de proteínas mostraram efeitos danosos durante a meia-idade. De todos os 6.318 adultos que participaram do estudo e que estavam com 50 anos ou mais, a ingestão de proteínas correspondia a 16% do consumo diário de calorias, cerca de 2/3 provindo de proteína animal.

As pessoas que tinham um consumo moderado de proteína ainda tinham probabilidade três vezes maior de morrer de câncer do que os que ingeriam uma dieta de baixa proteína, e a mudança de uma dieta de consumo moderado para uma de baixo consumo reduzia a probabilidade de morte prematura em 21%. A análise do hormônio de crescimento IGF-I em 2.253 destas pessoas mostrou que para cada 10 ng/ml de aumento do IGF-I, quem estava em uma dieta de alta proteína tinha 9% a mais de probabilidade de morrer de câncer do que quem estava em uma dieta de baixa proteínas.

Além do estudo em voluntários, também foram feitos estudos em ratos e em culturas de células, mostrando uma menor incidência de câncer e tumores 45% menores entre os ratos que seguiam uma dieta de baixas proteínas, após um experimento de dois meses. O Dr. Longo conclui que “quase todo mundo terá células cancerígenas ou pré-cancerígenas em algum momento”, e “um dos principais fatores para determinar isto é o volume de ingestão de proteínas”.

Fonte: Science20
BBC
ScienceDaily

 

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