Pessoa Rara

Pouca estatura, cabelos escassos, corpo acima do peso, nariz longo e achatado, barriga avantajada, e para complicar, nunca frequentara uma escola. Porém, alguns detalhes naquele rascunho de gente chamavam a atenção. Além da facilidade em lidar com números e contar histórias, era dotado de uma voz que encantava aqueles que se propunham ouvi-lo. Aos domingos, dez minutos antes do início da missa, lá estava ele no primeiro banco da igreja. À sua maneira, acompanhava toda a cerimônia religiosa e cantava os hinos.
Após a missa, recolhia-se aos seus aposentos que não era mais que um quartinho de nove metros quadrados onde cabiam uma caminha de solteiro, e um velho fogão. Nunca se soube se ele tinha algum parente e nem de onde havia surgido. Nem mesmo a idade e seu nome completo foram descobertos. As crianças o apelidaram de Tio Zeca.
Sabia-se, contudo, que ele já fazia parte da história do lugarejo. A criançada, quando os professores passavam alguma questão complicada de matemática, corria até Tio Zeca para que ele desse “um jeito” no caso e ele o fazia com a maior atenção e prazer. No final da “aula” Zeca passava a mão em uma violinha velha que ficava perdurada em um prego espetado na parece e cantava lindas canções de seu tempo.
Um silêncio sepulcral tomava conta do quartinho, apenas a voz do cantor e o som da viola eram ouvidos pela garotada. Era dessa maneira que Tio Zeca passava o tempo. Boa índole, respeitador e educado, nunca em todos os anos que ali viveu, teve seu nome maculado por quaisquer que fosse o motivo. Uma manhã fria de junho, pouco depois do amanhecer, sua ausência foi notada. Ele não estava mais no seu quartinho, mas a violinha, um par de chinelos e as poucas roupas que possuía permaneciam sobre a humilde cama onde ele repousava seu cansado corpo.
Ninguém notou o rumo que ele tomou. Presume-se que tinha partido à noite, aproveitando-se da pouca iluminação, porém, como poderia ter ido longe? Sem dinheiro, sem roupas, sem o mínimo para a sobrevivência? Quando soube, a garotada se organizou em grupos e saiu à cata do violeiro, mas a busca foi em vão. Anos mais tarde soube-se que Zeca estava morando em um abrigo de idosos. Caravana organizada por jovens se deslocou no afã de prestar uma homenagem ao violeiro, porém foi com tristeza que aqueles jovens receberam a notícia dando conta que o sepultamento de Zeca tinha acontecido no dia anterior.

Benedicto Blanco

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