Reviravolta na vida de Juvenal

Naquela época a vida tava dura pra todo mundo.  Como sempre, quem tinha grana tava de boa, mas quem não tinha era obrigado a ralar doze horas por dia pra trazer o sustento para casa. Como qualquer contemporâneo seu, Juvenal saía cedo e batia concreto com enxada o dia todo para sustentar os quatro filhos e a esposa grávida de 5 meses. Semianalfabeto, pouca estatura, magro, desdentado e desprovido de qualquer beleza física, ele levava a vida de forma simples, porém honrada.
Lógico que em todos os armazéns, lojinhas e botecos da cidade ficava um restinho de conta a pagar. Não que ele esquecesse do compromisso ou fosse nó cego, mas a situação de penúria não lhe permitia honrar as dívidas com pontualidade. Cansado de comer polenta com serralha, certo dia decidiu arriscar e pediu um pedaço de carne fiado no único açougue, onde ele tinha certeza que não tinha nada pendente.  O açougueiro que aguardava uma oportunidade, perdeu o controle e falou um monte para Juvenal que, triste e envergonhado voltou para casa sem a mistura solicitada pela esposa.
A dívida no açougue não chegava a vinte Reais. Com o auxílio da patroa revirou as gavetas e conseguiu o valor para quitar a conta. Mas, a caminho do estabelecimento comercial Juvenal teve uma ideia: Que tal utilizar parte da grana  e jogar na loteria? O açougueiro esperou até agora e ele, vinha comendo sem mistura há meses…. que diferença faria se jogasse e perdesse?. Jogou. Gastou quase todo o dinheiro em bilhetes de loteria.  Sobraram apenas cinco Reais que reservou para tomar uma “biritinhas” no final da tarde. Nem lembrava mais da conta do açougue e nem que tinha jogado na loteria.
Sem dinheiro, sem mistura e sem pagar o açougueiro lá vinha Juvenal cambaleando, cercando o frango, com habitualmente se diz do andar de bebuns inveterados. Meia hora após discutir com a esposa e jogar-se de costas no velho e surrado sofá da sala, alguém bate palmas e pergunta-lhe se ele havia conferido suas apostas. Enricou… Juvenal estava rico. Ganhou uma bolada. Daquele momento em diante sua vida mudaria. Compraria uma casa para a família, um bom carro, roupas, jóias e faria uma viagem para o Pantanal do Mato Grosso, seu sonho antigo. Iria à forra com o açougueiro que andava de fusca velho, enquanto que Juvenal andaria de carro do ano.
Deixou de beber pinga para tomar uísque importado. Contratou motorista particular e arranjou uma amante novinha e bonita. Dois anos de regalias, despesas sem regras e viagens sem planejamento foram suficientes para deixar Juvenal à míngua. Sem grana, sem família e sem amigos desapareceu no mundo e nunca mais se teve notícias dele. Dizem que cometeu suicídio e foi sepultado como indigente no cemitério de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Me contaram essa estória e não sei se é verdade.

::.. Benedicto Blanco é jornalista,  administrador do site Lençóis Notícias e membro da Academia Literária Lençoense.

 

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